Quem está me acompanhando aqui pelo blog ou pelas redes sociais sabe que estou desde o mês passado aqui em Paris para fazer o curso básico intensivo de cuisine na Le Cordon Bleu. Contei mais sobre esse projeto e sobre como foi a primeira semana nos posts anteriores, se você ainda não viu pode clicar aqui, aqui e aqui.

Sei que ando meio atrasada aqui nas atualizações, mas a segunda e terceira semanas aqui no curso foram muito intensivas e não tive tempo para sentar e escrever para vocês. O material já está separado e pretendo fazer isso em breve, provavelmente neste final de semana. Mas, enquanto isso, aproveitei para fazer esse break aqui e contar um pouco sobre esse dia que foi bastante intenso e emocionante no curso, exatamente na quarta-feira desta semana.

Fazer um curso intensivo na Le Cordon Bleu aqui em Paris não é uma coisa fácil. São 6 dias por semana de aulas consecutivas de manhã à noite, somando às vezes 14 horas direto dentro do curso. São muitas horas em pé cozinhando, cortes, queimaduras, fadiga extrema. Se você é carioca como eu, pouco acostumada ao frio europeu, esse também será um fator que vai pesar bastante no seu dia a dia. Acredite, sair de casa todos os dias quando ainda está de noite com lua no céu, vento gelado e temperatura em torno de 0 graus, e voltar para casa já de noite nas mesmas condições não é fácil. Se você também não fala francês, mais um ponto extra de dificuldade na sua rotina. Como disseram os chefs no primeiro dia de aula: “isso aqui não é acampamento de verão nem cursinho de férias”. Bem, eles estavam para lá de certos!

Somado a isso ainda tem todo aquele lance de ficar longe de marido, família, amigos, largar o conforto do meu apartamento que montei do jeitinho que queria para morar num quarto e sala alugado num prédio de 1800 que só cabe 1 pessoa por vez no elevador. A preocupação se as coisas no trabalho e em casa estão bem e continuarão bem quando voltar. São tantas coisas que permeiam nossa cabeça nessas semanas de ausência que as poucas horas que tenho para dormir acabam muitas vezes sendo bastante perturbadas. E às 6h da manhã do dia gelado seguinte já tenho eu que levantar, passar meu uniforme, sair correndo para mais uma longa jornada de descobertas.

E por que estou contando isso para vocês? Porque sei que muita gente que está me acompanhando também sonha em vir para Paris estudar culinária na Le Cordon Bleu, a escola mais tradicional do mundo. E se esse é o seu sonho, posso te dizer que VALE MUITO A PENA, mas você vai ter que lidar com muitas coisas ao mesmo tempo e que não vai ser fácil. Mas toda vitória derivada de um grande esforço tem um sabor ainda mais especial, não é?

louvre_paris_winter Uma foto que tirei do Louvre num dia bonito aqui em Paris 😉

Bem, então vamos ao  fatídico dia: para começar, não foi nesse dia aí da foto de capa da postagem. Só coloquei essa foto porque achei ela engraçada :D.

Era a última aula prática do dia, que já tinha sido looongo como todos os outros. Chega um momento no curso, quando estamos caminhando pro final, que o cansaço físico e mental é muito grande, então quando você entra na cozinha para mais 2 horas e meia em pé às 7 horas da noite, com o chef te pressionando sem parar, você tem que se concentrar muito para fazer o que tem que fazer (e é nessas horas principalmente que as pessoas se cortam, queimam, etc). Eu estava com uma enxaqueca horrível, daquelas que a luz incomoda, o cheiro incomoda, tudo incomoda, já tinha tomado dois remédios punks e nada de melhorar. Nosso prato a ser executado era relativamente simples, uma terrine de peixe branco com salmão coberta com espinafre, servida num molho “beurre blanc”, tipo uma redução do caldo de peixe que tínhamos que fazer finalizada com manteiga.

Estávamos nós 10 na execução do prato quando a enxaqueca chegou no limite e comecei a não conseguir me concentrar em mais nada. E eu sou muito perfeccionista em tudo que faço, então começou a bater o desespero de que eu simplesmente não ia conseguir fazer aquilo. Fui diminuindo o ritmo até a hora que o chef gritou “quero esse prato apresentado em 50 minutos”, olhei ao redor e todos concentrados e eu estava longe, muito longe de todo mundo. Travei.

Olhei pro chef e falei: “desculpe chef, não vou conseguir entregar em 50 minutos. Não dá.” Eu acho que devia estar tão pálida, com uma cara tão horrível, que ele olhou para mim e perguntou se eu queria sair. Eu disse que não, peguei o molde da minha terrine, virei de costas para a bancada e comecei a chorar copiosamente enquanto tentava arrumar as folhas de espinafre, que não ficavam no lugar de jeito nenhum. Coloquei na minha cabeça que eu ia terminar aquela porcaria de terrine nem que eu ficasse mais 3 horas lá dentro e limpasse e fechasse a cozinha e a escola sozinha. E foi durante esses minutos que muita coisa passou pela minha cabeça, aquela descrição que toda pessoa que diz ter passado u um momento de crise descreve, toda sua vida passando rapidamente na sua frente, é muito louco. Lembrei da minha infância, de como meus pais trabalhavam para me dar uma oportunidade, mesmo a gente tendo sido pobre e morado em lugares pobres, em estudar no colégio público, no ano em que desejei uma calça jeans da moda que meus pais não puderam me dar, em quantos anos de trabalho duro eu já tinha me esforçado, em como foi difícil e doloroso juntar dinheiro para fazer esse curso na Europa, eu que nem sequer nunca tinha tido dinheiro nem para visitar a Europa. E como eu merecia essa oportunidade e estava agora que nem uma idiota em cima do fogão chorando tentando colocar as malditas folhas de espinafre no molde. E que não dava para desistir agora, não mesmo, porque eu nunca mais ia me olhar no espelho se eu fizesse isso.

Terminei as folhas de espinafre no molde. Era para fazer em 5 minutos, mas devo ter levado uns 12 minutos, que na minha cabeça pareceram umas 12 horas de uma mistura de cansaço, enxaqueca e muitos pensamentos loucos.

Quando voltei para minha bancada com a cara inchada e a terrine na mão, um dos meus colegas que já tinha terminado o trabalho dele tinha adiantado a parte mais chata da terrine para mim (passar a massa de peixe, que eu já tinha feito, num tipo de peneira bem fininha, que é um saco, depois colocar tudo num saco de confeitar). E tinha limpado minha estação, minhas facas, tudo. Foi engraçado porque esse cara especificamente é um russo que praticamente não fala com ninguém, ele é muito fechado e na dele, e justamente ele quem me ajudou a terminar a aula. Agradeci, ele sorriu e voltou para seu lugar.

Terminei a terrine, servi meu prato, que acabou ficando bonito e bom. E nem fui a última a servir, no final das contas. E o remédio fez efeito, a dor de cabeça passou, sai do curso antes das 22h e fui para um restaurante com uma das meninas da classe para tomar um vinho. Ah, meu prato foi esse aí (desculpe a foto horrorosa):

terrine_lcbparis

Então é isso, volto daqui uns dias com outras postagens menos dramáticas e mais descritivas do projeto Le Cordon Bleu Paris para vocês! Beijo para todos, deixem suas mensagens e me sigam no Instagram, lá eu posto diariamente várias fotos do curso e de Paris!

 

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