Às 19h de ontem saí do escritório onde trabalho no centro do Rio de Janeiro e me encaminhei com alguns colegas para a estação de metrô da Carioca. É uma cena muito chocante encontrar uma Avenida Rio Branco fechada para o trânsito em pleno dia da semana em horário de rush, com muitas viaturas da polícia e seus PMs fardados e armados espalhados para “manter a ordem”.

A sensação antes mesmo de chegar à avenida era de sufocamento. Não só o sufocamento moral, mas o sufocamento físico, tamanha era a nuvem de fumaça das bombas de gás lacrimogêneo que eram lançadas constantemente durante a manifestação dos professores na Cinelândia. Eu nunca havia sentido o poder de uma bomba dessas. Quando estava a alguns passos da estação do metrô já não conseguia respirar, narinas e garganta ardiam muito, a falta de ar tomava conta de mim e as lágrimas escorriam dos meus olhos irritados.

Ao chegar em casa fiquei pensando antes de dormir em tudo que está acontecendo. É tão surreal que me sinto num filme B de mal gosto. Estudei alguns anos da minha vida em escola pública, e sempre digo para todo mundo que foi o melhor colégio que estudei em toda minha infância e adolescência. Era uma época em que a educação pública não era tão sucateada, sacaneada e arrombada como é hoje.

Eu me lembro de vários professores muito dedicados, apesar da falta absurda de recursos. Eu me lembro de ter de usar um livro velho, já sendo usado pelo terceiro ou quarto ano seguido, sem capa e todo rabiscado. Eu me lembro do ano em que a refeição que era servida para os alunos foi substituída por um achocolatado vagabundo em caixinha com um punhado de biscoitos maisena (e me lembro de colegas que infelizmente não tinham minha situação e não possuíam refeição em casa para substituir a que foi perdida, por isso muitas vezes dei meu lanche para eles levarem). Eu me lembro de ter a melhor diretora de colégio que já vi até hoje. Eu me lembro de aprender música, costura, cozinha, cidadania e xadrez no colégio público. Eu me lembro da minha professora de português levando um mimeógrafo antigo e pesado para a sala de aula para copiar o material para nós, pois não tínhamos acesso à cópias ou livros e ela queria fazer o melhor (e a sala ficava com aquele cheiro de álcool e suas folhas manchadas de azul que hoje me é tão nostálgico).

Eu cresci e venci, apesar do que muita gente pensa de alguém que estudou em colégio público. Eu me formei, eu me pós-graduei, eu falo 3 línguas e consegui bons empregos. E quando eu vejo as fotos nos jornais, na internet, penso na sensação sufocante do gás de ontem à noite e me lembro dos meus professores, isso me dá uma tristeza PROFUNDA. Como isso pode estar acontecendo? Como pode cada um, cada mísero cidadão dessa cidade, desse estado, desse país, não estar MUITO PUTO com tudo isso e não querer fazer alguma coisa? Nem que seja mostrar um mínimo de indignação?

Eu me formei em Letras, e durante a faculdade decidi trancar a licenciatura para só fazer o bacharelado. Por que? Porque já dava para ver que a situação dos professores era deprimente. Eu não tenho a força e a dedicação que essas pessoas possuem de levantar da cama todo dia e se esforçar tanto num sistema tão sucateado e corrupto, ganhando uma miséria e carregando uma responsabilidade tão grande nas costas que é educar os jovens desse país (também tão largados e mal criados desde casa, muitas vezes).

É desesperador ver que sua cidade, seu estado, seu país está perdido. Porque para mim o limite do absurdo foi ontem. O limite do aceitável foi eu me permitir entender que aqueles mesmos professores que ser esforçaram todos os dias durante minha infância estavam sendo massacrados por uma polícia despreparada, comandada por políticos salafraios, corruptos e sem vergonha. E que foram escolhidos por nós. E que são escolhidos ano após ano por nós. E que não temos força ou vontade ou ambos para assumir nosso próprio erro e retirar esses caras de lá. Porque sim, aceitem o fato: NÓS ERRAMOS. Nós fracassamos como sociedade, como população, ao escolher errado, ao permanecer no erro, ao fechar nossos olhos quando achamos que não está nos afetando diretamente.

Nem sei mais o que dizer. Conforme escrevo as emoções fluem de tal forma dentro de mim que eu poderia escrever o dobro, o triplo, infinitamente. Só sei que eu estou triste, muito triste.

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